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quarta-feira, maio 05, 2004

RITA


Capítulo I — Na fila do desemprego


Essa é uma história muito comprida e nem sei direito por onde começar. Já sei o que o leitor deve ter pensado. Deve ter sido algo como: "Comece pelo começo, oras!". Mal sabe o senhor (ou a senhora) o quanto é difícil contar esses fatos. Sou um dos poucos que já conhece toda a história e guardar segredo durante muito tempo será uma dificuldade para um "língua de trapo" como eu. Coloque-se no meu lugar. Não posso contar o começo da história. Terei que iniciar a narrativa do meio, pois assim você não terá noção dos segredos escondidos por trás de RITA.

****

O desemprego é um sério problema que urge por solução, mas que não será resolvido de um dia para outro. A cada dia que passa as filas nas portas das fábricas crescem e as pessoas acumulam mais decepções. Basta um simples anúncio no jornal oferecendo vaga para caixa de supermercado ou um concurso público para gari para que centenas e mais centenas de pessoas se aglomerem em filas de dobrar quarteirão.
Se engenheiros lutam por um salário mínimo. Se médicos querem ser gari. Imaginem o que não acontece com uma jovem de vinte e poucos anos, que tem apenas o colegial completo. Qualquer vaga que for oferecida é aceita! Entretanto nenhuma vaga é oferecida e as contas se acumulam em casa. Para piorar a situação o marido também está desempregado e até mesmo a filha de quatro anos de idade já anunciou que se for necessário ela também trabalhará para ajudar a família.
Não fique pasmo. A situação brasileira realmente é assim e você, ao invés de ficar lendo essas mal escritas linhas poderia olhar para o lado e ver que a coisa está grave. Você reclama do seu emprego. Reclama do seu chefe. Reclama dos colegas de trabalho. Porém se esquece que muitos de seus compatriotas não tem um emprego para reclamar. Para você só tenho uma coisa a dizer: EGOÍSTA!
Desculpe o desabafo, finjam que não o leram, mas quando conheci Rita e sua história fiquei revoltado com o problema do desemprego.
Conforme você já deve ter imaginado, a moça com apenas o colegial completo é Rita. E nossa história começa em mais um fila de desempregados que ela enfrentou.
Era uma manhã de segunda-feira, fazia muito calor, Rita havia enfrentado três horas de fila apenas para entregar um currículo (praticamente em branco). Estava com sede, na bolsa só tinha o dinheiro para a condução. Não podia comprar sequer um copo d'água. Começou a passar mal — seu organismo exigia pelo menos uma gota de água. As pessoas rodavam ao seu redor. Parecia que a qualquer momento cairia desmaiada. Por pouco não foi o que aconteceu. Quem sabe tenha sido conspiração do destino? Não posso afirmar com certeza. Só sei que Rita, praticamente sem querer entrou em uma lanchonete. Uma famosa lanchonete de São Paulo. A lanchonete Silva.
Entrou. Sentou (quase que por osmose). Um homem muito simpático veio atendê-la.
— O que deseja?
Rita conhecia aquele rosto de algum lugar. Ele não era um simples garçom. Já havia aparecido na TV alguma vez.
— O que deseja? — insistiu a simpática figura.
— Para agora um copo d'água. Mas não posso pagar. Então preciso com mais urgência ainda de um emprego.
— Pois não! A água eu já te trago. O emprego você começa amanhã.


Enviado por Gabriel H.