|
| |
Domingo, Dezembro 19, 2004
O Garoto Que Voltou
Capítulo 11 – O Porta-Retrato
Thomas, Ricardo e Brenda voltaram para a cidade, para o bairro onde moravam, onde poderiam recapitular o que acabara de acontecer. Thomas parou o carro próximo a um campo de futebol, o mesmo campo onde dois anos antes eu e Helena fomos surpreendidos pelo pai dela. O campo estava vazio naquele momento, e os três puderam conversar sem intromissões.
Thomas se recordava do momento em que, ainda ao volante de seu carro, estacionado diante do edifício de Zé Freire, desligou o motor. Neste instante, Ricardo passava pela porta de entrada, puxando Brenda pelo braço. Não queria de jeito nenhum entrar sozinho. A porta se fechou assim que os dois passaram por ela.
O lugar estava realmente escuro, mas Brenda não demorou a localizar um interruptor e acendeu a luz. Apesar da aparente arrumação do lugar, estava bem claro que Zé Freire pouco aparecia por ali. Um cheiro de mofo dominava o lugar.
Por dentro, no entanto, o lugar realmente parecia uma casa. Tinha cozinha, banheiros e quartos, além de sala de jantar e até uma sala de televisão. Ricardo foi direto para os quartos, procurando sabe-se lá o quê. Brenda o seguia.
Em cada cômodo que entrava, Ricardo olhava para o teto, à procura de câmeras. No entanto, não havia nada por ali, nenhum aparato de segurança os detinham.
No quarto que deveria pertencer à Zé Freire havia uma cama de casal, que parecia não ser utilizada há algum tempo. O lugar estava arrumado, mas por toda a casa e até mesmo nos quartos parecia não haver nenhum objeto pessoal de Zé Freire, ou de quem quer que seja. Roupas, sapatos, escova de dentes, nada. Um único objeto chamou a atenção de Brenda. Na gaveta do criado-mudo do quarto havia um porta-retrato: na foto, um José Freire um pouco mais jovem, ao lado de uma moça alta, magra e de cabelos castanhos, num local que parecia ser uma praia. No verso da foto, uma legenda: "Eu e Karla". Sem data, sem local, mais nenhuma informação.
Com um berro, Ricardo chamou Brenda, que guardou a foto do casal dentro da camisa. Brenda avistou Ricardo num corredor, perto da cozinha. Ele havia descoberto uma espécie de alçapão.
- Primeiro as damas – perguntou, exagerando na 'cordialidade'.
- Engraçadinho.
- Vamos lá, Brenda – disse Ricardo, se adiantando e descendo as escadas. – Isso sim vai ser interessante.
- Achei que você queria entrevistar o José Freire.
Ricardo não respondeu e continuou descendo. O porão estava escuro, mas ele logo alcançou um interruptor. O que os dois viram a seguir os deixaram espantados: um laboratório completo. Instrumentos e apetrechos de alquimia espalhavam-se pelo lugar, dividindo o ambiente com computadores e aparelhos mecânicos e eletrônicos que Ricardo jamais vira antes.
Um canto do lugar estava menos iluminado. De longe, era possível ver um recipiente do formato de uma tina, com mais de dez mil litros de um liquido que parecia ser água, mas não tinham certeza. Acima da tina, havia um caixote de madeira de aproximadamente dois metros de altura, preso com uma corda.
Ricardo e Brenda se aproximaram da tina, mas perceberam que não estavam sozinhos no porão. Ao lado do recipiente, havia uma jaula. Dentro dela, uma pessoa respirava ofegante. Ricardo não tinha certeza se era um ser humano, até que ela estendeu o braço esquerdo, coberto de uma penugem azul-claro, e sussurrou:
- Me... ajuda!
Enviado por
Mascote
| |