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Domingo, Novembro 14, 2004

O Garoto Que Voltou


Capitulo 9 – A Empreitada



Como eu não participei dessa parte da história, tudo o que sei é o que fiquei sabendo posteriormente, por outras pessoas. Ainda assim, posso garantir que o relato a seguir é retrato fiel da realidade, do modo como aconteceu.
Ricardo e Brenda ficaram particularmente interessados na história de José Freire, ou 'Zé Freire', como era chamado. Além de ser um escritor conhecido, e tido por muitos como uma espécie de guru, Zé Freire era também um cientista dedicado a genética; e Ricardo era fascinado pela ciência. Isso, por si só, já constituía motivo para Ricardo interessar-se por Zé Freire, e por seu livro, a ponto de ir procura-lo em sua casa em Nova Indaiá, caso estivesse lá. No entanto, Matheus dissera que provavelmente o cientista estaria em Marbla City, observando o mascote da cidade.
Ricardo não deu atenção a esse detalhe; ou muito pelo contrário, prestou bastante atenção a esse detalhe, que se revelaria crucial em sua empreitada. Ele, na verdade, não tinha nenhum objetivo específico. Pretendia apenas ir ao laboratório de Zé Freire, quem sabe entrevista-lo, ou algo do tipo.
Brenda não estava interessada em José Freire. Naquele momento, parecia interessar-se apenas por Ricardo. É por isso que o seguia, onde quer que ele fosse. Para chegar até lá, no entanto, Ricardo precisaria da ajuda de um amigo. Thomas Martins.
A reação de Thomas diante do convite do amigo, de embarcar em uma empreitada com todo o jeito de encrenca, era previsível. Ele não queria se envolver. Em nada. Na verdade, Thomas jamais quis se envolver em coisa alguma. Parecia querer ser um eterno anônimo. Estava de bom tamanho.
Para tranqüilizar o amigo, Ricardo garantiu que sua função seria apenas levar ele e Brenda para o laboratório de Freire. Se quisesse, nem precisava sair do carro. Sim, porque para chegar lá precisariam ir de carro, dada a distância que separava o lugar da periferia da cidade. Para encontrar o lugar, Ricardo não precisou mais do que algumas dicas fornecidas pelo próprio Matheus, incluindo uma fotografia tirada no ano anterior, em que Zé Freire aparecia diante de sua propriedade, acompanhado de uma moça chamada Karla Robinson.
Thomas resistiu por uma semana, mas acabou cedendo. Participaria da empreitada, ou seja lá como Ricardo chamava aquilo. Ainda assim, percebeu que o amigo só o chamara por um motivo: Thomas era o único, entre os três, que já dirigia, embora fosse menor de idade e não tivesse carteira de motorista. Dirigir naquela idade era algo pelo qual Thomas podia se gabar perante os amigos, mas nem mesmo isso ele fazia. Preferia utilizar os momentos em que dirigia para descarregar suas energias, pisando fundo no acelerador e fazendo os pedestres temerem por seus calcanhares.
Após um percurso que poderíamos chamar de viagem, dada a demora em se chegar ao destino, os três enfim se depararam com a fachada de um prédio antigo, que parecia abandonado. O prédio tinha apenas dois andares, e não havia janelas em lugar nenhum. Servindo de entrada, apenas uma garagem e uma porta baixa. Mathisse Guerra, se estivesse ali, teria que entrar com as pernas dobradas.
Mas nenhum dos três havia entrado ainda. Ricardo e Brenda estavam diante da fachada, analisando se aquilo era mesmo uma boa idéia. Thomas estava impassível, no banco do motorista, com uma das mãos ao volante.
- E aí, Ricardo?
- Ahn.... você não vem mesmo?
- Não. Fique à vontade. Eu espero aqui. Não vou fugir, fique tranqüilo.

Embora tenha dito à Brenda que pretendia entrevistar Zé Freire, Ricardo não trazia nenhum aparelho para efetuar uma entrevista. Gravador, filmadora, máquina fotográfica, bloco de anotações, nada. Apenas a roupa do corpo. E uma boa memória, talvez.
Bateu na porta. Nada. Novamente. Nada. Experimentou a maçaneta. Trancada. Bateu novamente. Nada. Brenda interrompeu o amigo, experimentando a maçaneta. E forçando-a para a frente. Desta vez deu certo, e a porta abriu diante dos dois.
O lugar estava escuro, e silencioso. Poderia estar vazio. Só saberiam quando entrassem.
- Primeiro as damas? – adiantou-se Ricardo.
- Engraçadinho. – retrucou Brenda, sem se mover.
- Só estava brincando. – disse Ricardo, entrando, mas puxando a amiga pelo braço. Não queria de jeito nenhum entrar sozinho. A porta se fechou assim que os dois passaram por ela.
Thomas olhou novamente o prédio, de cima a baixo. Por fim, desligou o motor. Poderia ser uma longa espera.


Enviado por Mascote